
O cavalo que afunda: por que o Nolan não consegue mentir
Quando a gente fala da Odisseia do Christopher Nolan, pode parecer que a gente está falando só de mais uma adaptação de Hollywood. E quando alguém critica o filme, pode parecer que é só purismo de quem leu o livro e quer apontar as diferenças. Mas quando a gente presta atenção em quais mudanças o Nolan fez, e principalmente em como ele explica essas mudanças, aparece uma coisa muito maior que o filme. Aparece um retrato de como a nossa época pensa. Ou melhor: de como ela ficou incapaz de pensar de outro jeito.
O detalhe que abre tudo o próprio Nolan contou, com orgulho evidente, numa entrevista de duas horas pra revista Time. Ele disse que encontrou a solução para um problema narrativo que sempre o incomodou: por que os troianos acreditariam que o cavalo de madeira estava vazio e o arrastariam pra dentro da cidade? A solução dele foi fazer o cavalo semi-submerso, afundando no mar. Assim os troianos o resgatariam, em vez de aceitá-lo como presente suspeito.
Parece esperto. Parece um roteirista competente fazendo o trabalho dele. Só que ele resolveu um problema que nunca existiu. No poema, os troianos levam o cavalo pra dentro porque ele é um presente e porque ele tem rodas. Fim. O poeta te conta uma coisa francamente impossível no mesmo tom que usa pra descrever o nascer do sol, e é exatamente aí que ele avisa em que tipo de realidade tu está pisando. O impossível dito com naturalidade não é furo de roteiro. É a assinatura do mito.
O Papai Noel de engenharia
Pra entender o padrão, imagina um sujeito que te explica que o Papai Noel consegue passar pela chaminé porque ele mesmo projetou a chaminé larga o suficiente desde o início, usando métodos construtivos adequados e materiais confiáveis. E que depois te explica como as renas são alimentadas pra aguentar tamanho esforço numa noite só, e qual foi a rota logística que o bom velhinho elaborou pra entregar todos os presentes no prazo.
Esse sujeito é o Nolan, e o padrão se repete no filme inteiro. Ele cortou a orquestra da trilha porque "não havia orquestra na Grécia antiga". Mas não havia câmera IMAX tampouco, Christopher. Ele justificou o visual da armadura. E quando o Jon Stewart perguntou por que o famoso truque do "Ninguém" ficou de fora (a cena mais célebre do poema, em que Odisseu diz ao Ciclope que seu nome é Ninguém, e depois o monstro cego grita "Ninguém está me matando!" e os vizinhos vão embora achando que está tudo bem), o Nolan respondeu: "É um trocadilho. Trocadilhos em tradução são difíceis. Eu tentei. Não foi possível."
Só que essa piada tem quase três mil anos e funciona em toda língua pra qual já foi traduzida. Criança de escola entende. O que se perde na tradução é uma camada extra do grego: o nome falso Outis ecoa mētis, que significa astúcia, a característica que define Odisseu. Mas cortar a cena inteira porque uma camada do trocadilho não traduz é demolir a casa porque um azulejo rachou. A razão verdadeira é outra.
No lugar da cena, o Nolan pôs um Ciclope quase mudo. E quando os marinheiros perguntam por que Odisseu não conversa com o monstro, o Odisseu do Matt Damon responde com uma analogia: vocês conversariam com formigas?
Tudo deve ser inteligível
Em 1872, Nietzsche publicou O Nascimento da Tragédia, e nesse livro ele descreveu exatamente o Christopher Nolan, com um século e meio de antecedência.
Nietzsche estava tentando entender por que a tragédia grega morreu. A resposta dele foi que ela não morreu de velhice, foi assassinada. O assassino tinha nome: Eurípides, o dramaturgo que começou a "consertar" a tragédia, explicando tudo nos prólogos, aparando o êxtase até caber num argumento, arrastando o espectador pro palco. Por trás de Eurípides, uma mentalidade nova, que Nietzsche chamou de socratismo estético, e cuja lei suprema é: para ser belo, tudo deve ser inteligível.
Tu conhece esse cara. É o amigo que explica a piada e mata a piada, o sujeito que pausa o filme pra dizer que aquilo seria fisicamente impossível. E ele não é só chato. Ele é um sintoma. Quando uma cultura só consegue achar belo aquilo que consegue explicar, ela perdeu acesso a uma metade inteira da experiência: a metade dionisíaca, a da embriaguez, da música, do êxtase coletivo, da mentira sagrada que revela mais que qualquer fato.
O Nolan é o Eurípides com 250 milhões de dólares. Cada decisão dele é uma defesa perante um tribunal imaginário da plausibilidade. E bastava um ato autoral simples, porque eu prefiro assim, pra abrir a porta pra fora da causalidade. Mas o homem teórico não consegue dizer "eu prefiro". Ele precisa que a preferência dele seja um teorema.
Odisseu já era o problema
Em 1947, dois filósofos alemães exilados pelo nazismo, Theodor Adorno e Max Horkheimer, publicaram Dialética do Esclarecimento. Um capítulo inteiro do livro é sobre a Odisseia.
A leitura deles é desconcertante: Odisseu seria o protótipo do sujeito moderno, o primeiro homem da razão instrumental. Ele não enfrenta os monstros e os deuses, ele os calcula. Negocia, engana, troca, renuncia. E o momento-chave dessa leitura é justamente a cena que o Nolan cortou. Dizer-se Ninguém, pra Adorno, é o ato fundador da subjetividade moderna: o homem que renuncia a si mesmo para se conservar. Odisseu se anula pra sobreviver.
Se isso soa familiar, é porque é a tua vida. É a vida de todo mundo que já se apagou numa reunião pra não perder o contrato, que já engoliu o próprio nome pra manter o emprego, que já virou "ninguém" das nove às seis pra continuar existindo das seis em diante. O poema sabia disso há três mil anos, e sabia também do preço. Porque quando Odisseu, já seguro no navio, não aguenta ver "Ninguém" levando o crédito pela façanha e grita seu nome verdadeiro de volta pro Ciclope, o monstro reza pra Poseidon usando o nome certo, e essa vaidade custa dez anos de mar. A fatura chega.
A diferença entre Homero e Nolan, então, não é que um tem magia e o outro não. É que Homero mantém o custo visível. O poema mostra que a razão calculadora é um sacrifício, que virar ninguém dói, que reconquistar o nome dói mais. O Nolan, herdeiro tardio demais pra sentir essa dor, cortou a cena do sacrifício e ficou só com o cálculo. É a dialética do esclarecimento sem a dialética.
O mundo virou estoque
Martin Heidegger passou a vida tentando entender o que a técnica moderna fez com a nossa relação com o mundo, e deu um nome pra isso: Gestell, que dá pra traduzir como "armação". Na era da técnica, o mundo para de aparecer como mundo e passa a aparecer como recurso disponível. O rio deixa de ser rio e vira "potencial hidrelétrico". A floresta vira "madeira em pé". O teu sono vira métrica no aplicativo. O teu fim de semana vira "conteúdo". Tudo que existe comparece como estoque à espera de otimização.
É isso que a frase das formigas faz. Em Homero, conversar com o monstro É a arma: Odisseu não vence Polifemo com a estaca em brasa, vence com o nome falso, e a estaca só funciona porque a mentira verbal garantiu que nenhum vizinho viria ajudar. O apelido do herói no poema é polytropos, "o das muitas voltas", e as voltas são de linguagem. Um Odisseu que acha indigno conversar com aquilo que não pode calcular é um Odisseu amputado do próprio talento. Sobra um estrategista de logística, que é, não por acaso, o único tipo de herói que a armação sabe produzir.
E tem a prova visual de que o critério do Nolan nunca foi rigor histórico: os lestrigões. No poema, são gigantes canibais que arpoam os marinheiros como peixes e afundam onze das doze naus, horror de carne e apetite, o episódio mais escuro da viagem. No filme, viraram cavaleiros de armadura de placas polidas. Aço. Mil e setecentos anos antes de existir aço. No filme do diretor que cortou a orquestra por fidelidade histórica. Ele viola a história sem pestanejar, mas sempre na mesma direção: pro fabricado, pro metálico, pro que parece saído de uma linha de montagem. O corpo monstruoso, nu, faminto, ele não consegue filmar. A manufatura, sim.
Quando a narrativa vira informação
O filósofo coreano Byung-Chul Han escreveu que a gente vive uma crise da narração. As histórias, que antes criavam mundo e sustentavam comunidades, estão sendo degradadas em informação: dados que precisam ser verificáveis, plausíveis, atualizáveis, checáveis.
A diferença é simples de sentir: a receita da tua avó é narrativa. Tem gesto, tem repetição, tem "porque sempre foi assim", e ninguém pede a fonte. A receita otimizada do app de nutrição é informação. As duas alimentam. Só uma delas significa.
O cavalo com rodas é narrativa. O cavalo semi-submerso com justificativa hidrodinâmica é informação fantasiada de história. Mito é ritual, e ritual é exatamente aquilo que não precisa se justificar. É a forma que se repete e, repetindo-se, segura a comunidade no tempo. A explicação é o solvente do ritual. Cada "solução narrativa" que o Nolan encontrou é um pouco de solvente despejado sobre três mil anos de forma.
Realismo causal
Mark Fisher chamou de realismo capitalista a hegemonia que o capitalismo estabeleceu sobre a nossa imaginação, tão profunda que a gente se tornou incapaz de conceber alternativas. Daí a frase famosa: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
Eu queria propor um primo desse conceito: realismo causal. A convicção, tão profunda que nem parece convicção, de que só é real aquilo que tem mecanismo. No realismo causal, é mais fácil imaginar a engenharia naval micênica de um cavalo flutuante do que imaginar um deus. É mais fácil projetar a chaminé do Papai Noel do que aceitar uma mentira bela. E o Nolan não é o vilão dessa história. Ele é o sintoma mais caro já produzido dela. A gente é a doença. Todos nós, os que explicam tudo, os que googleiam o mecanismo, os que pedem a fonte da experiência alheia.
E é por isso que dói. Porque a causalidade já é o peso da nossa vida ordinária: é o boleto, a métrica, o algoritmo do feed te entregando anúncio de aposta entre um post e outro. É por isso que tanta gente procura o cinema experimental, a arte estranha, qualquer coisa, e sente algo soltar por dentro quando a causalidade finalmente quebra. Isso não é escapismo. É o contrário. É a suspeita, corretíssima, de que o regime causal não é a realidade inteira. É só o regime que venceu.
Enquanto o Nolan ficou longe do mito, o mundo causal dele, de espelhos, truques e quebra-cabeças, funcionou lindamente, às vezes genialmente. Mas a Odisseia é outra coisa. É a víscera do mito. É o espírito dionisíaco de lama, sangue e sal do mar. É a mentira bela que te faz explodir de alegria sagrada.
Homero mente com a cara mais limpa do mundo, e a mentira dele carrega três mil anos de verdade. O Nolan só diz verdades verificáveis, e o conjunto delas produz a mentira maior: a de que o mundo é só isso.
O cavalo dele afunda. O nosso tem rodas. E entra na cidade porque a gente mesmo o puxa, cantando, sabendo e não sabendo ao mesmo tempo, como sempre se soube e não se soube. É assim que o sagrado atravessa a muralha. Sempre foi.